O hacker sem-teto Commander X acaba de lançar um livro enquanto corre da polícia

Christopher Doyon ou, como é conhecido entre seus mais de 7.000 seguidores no Twitter, Commander X é um hacker sem-teto que há quatro anos se esconde do governo norte-americano lá no Canadá.

 Por mais que diversos membros influentes do Anonymous tenham ido para a cadeia nos últimos meses, Commander X é exceção. De acordo com relatos, mesmo sendo integrante-chave do coletivo hacktivista em um de seus mais notáveis períodos, ele conseguiu escapar do mesmo destino que seus antigos colegas.

Como espécie de símbolo de sua liberdade, X publicou seu primeiro livro, intituladoBehind the Mask, o primeiro a dar um passo adiante no registro da história do Anonymous. Por mais que estejamos acostumados com vozes esporádicas do coletivo se pronunciando pela internet, muitas vezes as ouvimos por meio de filtros limitados, como vídeos curtos e por vezes atrás das grades.

O livro de X é a antítese do que se espera do Anonymous: é intimista, cheio de si e autodepreciativo, dando ao leitor uma visão única e em primeira pessoa, uma perspectiva completamente incompreensível para quem não é hacker.

Claro que não é boa ideia escrever um livro desses enquanto o FBI caça o grupo. Commander X, porém, subverteu a lógica. Desde que se tornou fugitivo, ele dáentrevistas para grandes veículos e provoca agências governamentais no Twitter ao escrever mensagens como: “O que a Divisão de Crimes Cibernéticos do FBI fará quando não houver mais internet? O Walmart está contratando seguranças?” e “Se você quer que os porcos respeitem seu protesto, apareça armado”. Com esse jeitinho revoltado, a relação tradicional entre hackers e mídia foi pro beleléu.

“Para quem estiver pensando como o Anonymous dá início a grandes operações, muitas vezes começa com uma indignação justa chegando às raias da revolta geral.”

Behind the Mask trata de quando X integrou o Anonymous, entre 2008 e 2012, logo assumindo um posto influente na organização descentralizada. Por esse motivo chamou a atenção da Divisão Cibernética do FBI, o que culminou em sua fuga dos EUA por meio de uma estrada de trilhos subterrânea projetadas pelo próprio — tudo isso, claro, de acordo com o autor.

O próprio X comenta que, de início, acreditava que o Anonymous se tratava de um “culto maluco de ficção científica” em que as pessoas usavam “máscaras imbecis de Guy Fawkes”. Ao que parece, disseram-lhe para ingressar no Anonymous quando atuava como “Comandante” de uma pequena milícia cibernética conhecida como People’s Liberation Front (PLF), que era administrada a partir de um “calabouço” em Cambridge, Massachusetts, nos EUA, em que “cada centímetro quadrado” das paredes estava “coberto com pôsteres de shows (a maioria do Grateful Dead), flyers de protestos… E arte feita à mão, em grande parte de cunho político”.

Foi lá que X recebeu uma ordem do “Comandante Supremo da PLF”, homem que conhecemos no livro apenas como Commander Adama, para que entrasse no Anonymous. Tudo isso é provável até a parte em que o People’s Liberation Front existe mesmo e Christopher Doyon é uma pessoa de verdade. Fora isso, Behind the Mask tem que ser lido com uma dose saudável de ceticismo sobre os eventos ali detalhados.

No entanto, as intenções de Adama ao fazer com X entrasse no Anonymous supostamente eram as seguintes: 1) que a PLF se aliasse ao grupo e 2) que lançassem uma ofensiva contra o governo de Santa Cruz por causa do tratamento dispensado aos sem-teto – uma cidade em que dormir em público ainda é crime. Pelo visto, segundo X, Adama buscava vingança em nome de um amigo desabrigado seu que foi encontrado morto debaixo de uma ponte.

X logo aceitou a missão, o que explica bastante sobre a mentalidade de hackers como ele. Em mais de uma oportunidade deixa bem claro que ele e seus amigos muitas vezes agiam motivados por raiva pura e simples: “Para quem estiver pensando como o Anonymous dá início a grandes operações, muitas vezes começa com uma indignação justa chegando às raias da revolta geral”.

Após aceitar tal ordem, pulamos um ano para frente até a missão nas montanhas em Santa Cruz, onde o hacker mora e cultiva maconha ou, como ele chama suas plantas, “as garotas… 26 das mais belas misturas de sativa/indica que só poderiam crescer na terra preta das montanhas de Santa Cruz”.

Ele segue com sua tarefa para vingar os sem-teto. E por mais que tenha chegado a derrubar o site do condado de Santa Cruz em 2010, foi uma pichação sem nada demais. X descreve tais ataques DDoS de baixo impacto como operações “quebra-quebra”. Apesar deste ato relativamente inconsequente, foi este que levou à acusação da qual X foge até os dias de hoje (com pena máxima de 15 anos pela Lei de Fraude e Abuso de Computadores).

A relação de X com o Anonymous levou a outras notáveis invasões, incluindo aquilo que agora ele se refere como a derrubada do endereço Mastercard.com com seus próprios comandos (“Eu dei o enter”), durante o infame ataque do Anonymous a empresas de cartões de crédito e Paypal após cortarem as doações ao Wikileaks.

Na talvez mais reveladora anedota da vida de X como hacker fugitivo, ele descreve seu papel no ataque ao governo do Egito durante a Primavera Árabe em uma cafeteria em San Francisco chamada Coffee to the People Cafe:

“Outra área em que meu trabalho teve impacto foi na coleta de dados. Programei uma ‘aranha´ para passar por servidores e coletar dados específicos. A minha estava programada para captura números de fax e e-mails de todo e qualquer egípcio. A chamei de ‘Hazel’ – e ela não só era capaz de desempenhar a tarefa como também de separar dados de civis e de autoridades. Com o tempo, isso possibilitaria com o que Anonymous travasse uma guerra psicológica contra o governo egípcio ao mesmo tempo em que enviava informações valiosas e encorajava o povo do país. Isso levou a uma cena meio cômica: dormi num beco atrás da cafeteria onde estava para continuar conectado e manter Hazel rodando.”

Esta dualidade intensa ao coordenar e participar de atos hackers de cunho global enquanto dormia na rua resume bem o fascínio que jornalistas e ativistas nutrem por Commander X há anos.

Como já dito, Behind the Mask tem que ser lido com algum distanciamento, nem que seja pelo simples fato de que foi escrito por um dos maiores evangelizadores de um dos mais polêmicos e impactantes movimentos ativistas de todos os tempos. X nunca se freia ao falar do impacto do Anonymous; de fato, algumas de suas declarações anteriores são quase que inacreditáveis.

Mas as partes que temos como confirmar da história e o envolvimento de X são históricas; muitos de seus colegas foram presos e punidos, a indústria financeira tomou um susto no caso Wikileaks, X é mesmo um fugitivo e representa um novo ativismo anárquico que pode chamar a atenção de alguns dos mais fortes governos do mundo.

Por todas estas razões, o livro de X é um relato pessoal de uma aventura bizarríssima. Sua fuga dos EUA já vale a atenção do leitor. Segundo o autor, ele projetou trilhos subterrâneos antes mesmo de saber que os usaria um dia. O inventou acabou ligando membros do Anonymous e simpatizantes. Eles poderiam, quando necessário, transportar um “pacote” (suas palavras) de um ponto a outro, de forma a levar um ativista norte-americano ao Canadá, onde estaria seguro.

Projetar algo desse porte e fazer funcionar são duas coisas bem diferentes. O próprio X, que morava em um acampamento próximo ao rio San Lorenzo na Califórnia, afirma ter sido meio “coisa de espião demais’ viver tudo isso.

Infelizmente, o livro termina em 2012, com a aparição de X, mascarado, no Hot Docs Film Festival, para estreia do documentário sobre o Anonymous dirigido por Brian Kloppenberg, We Are Legion, em Toronto, no Canadá. Como o mesmo disse: “Cheguei na estreia mundial [do documentário] para fazer minha parte com meu moletom marrom de Guy Fawkes, meu passe-livre no pescoço e uma máscara de Guy Fawkes no rosto”. Então ao final de Behind the Mask ficamos sem saber o que X tem feito no Canadá nos últimos quatro anos.

Apesar da linha do tempo incompleta, o livro tem um registro em primeira mão de um homem que, por bem ou mal, fez parte de algumas das principais ações do Anonymous. Sem dúvida, trata-se de uma obra essencial para compreensão do impacto desta controversa, descentralizada e imprudente rede hacktivista.

(Via agência de notícia)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *