​É bom pensarmos como serão os cemitérios do futuro!

Os cemitérios de todo o país se enchem de visitantes no Dia de Finados, com flores nas mãos, caminham entre túmulos, lápides, placas e monumentos

Na maior parte do ano, porém, o vazio e o silêncio dominam a paisagem. Enquanto ao seu redor as ruas pulsam em vida, com pedestres, camelôs, carros e motoboys lutando por cada centímetro de espaço urbano, os cemitérios são mais visitados por baratas e pombas do que por gente.

Em meio a esse cenário discrepante, muitos urbanistas andam se perguntando: ainda faz sentido dedicar tanto espaço a corpos em decomposição? Como encontrar novas soluções para lidar com os nossos restos mortais – que, claro, nunca deixarão de existir? O que fazer quando acabarem os espaços nos cemitérios existentes? Abrir outros? Tirar ainda mais espaço de gente viva?

Apesar de urgente, essa é uma discussão ainda incipiente na academia. É um tema tabu — a morte e os corpos em putrefação —, que resvala em questões geralmente considerados de foro pessoal. “Problemas religiosos e culturais fazem com que o uso desses espaços na cidade se perpetue sem que haja um questionamento”, diz a urbanista Rosana Miranda, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. “É um debate muito complexo, pois envolve uma área vazia da cidade, mas que não é vazia de significados. Ela carrega grande carga de relações pessoais.”

Segundo os historiadores, o enterro dos cadáveres é um dos mais antigos e perenes rituais da espécie humana. Quando o homem ainda era nômade, ele já cuidava de arranjar residência para seus mortos. Gregos, romanos e judeus antigos faziam suas sepulturas fora das cidades. “Foram os cristãos que urbanizaram os mortos, estabelecendo seus primeiros lugares de culto junto aos túmulos de seus mártires”, diz o urbanista Renato Cymbalista, também professor da FAU-USP e presidente do Instituto Pólis.

Essa relação mudou a partir do século 18, quando os corpos começaram a ser vistos como impuros, e os cemitérios passaram a ser construídos longe das cidades. Foi desse modo que eles foram pensados em boa parte das metrópoles brasileiras. “Mas aí as cidades cresceram enormemente no século 19 e 20. E os cemitérios acabaram ficando novamente dentro do tecido urbano”, diz Cymbalista. Em São Paulo, por exemplo, os grandes cemitérios foram originalmente construídos em áreas distantes, mas a cidade cresceu tanto que eles foram englobados e hoje estão perto de áreas centrais, como a Avenida Paulista.

Cercados novamente pela cidade, os mortos voltaram a afetar o dia a dia dos vivos. “Os cemitérios se tornaram grandes áreas que causam interrupção no tecido urbano. Infelizmente, eles não são um espaço público usado pela população”, diz Rosana Miranda. “Quando eu era estudante, uma colega desenhou um mapa mostrando o que aconteceria se todos os cemitérios de São Paulo fossem transformados em parques: teríamos uma rede muito bem distribuída. Mas é claro que isso nunca vai acontecer.”

A real é que muito pouco pode ser feito em relação aos cemitérios já existentes nas cidades. “A maior parte dos túmulos são concessões perpétuas. Desapropriar cada um constituiria procedimentos caríssimos e talvez inviáveis do ponto de vista jurídico”, diz Renato Cymbalysta. “E do ponto de vista do patrimônio histórico, seria um desastre perder tanta história representada nos túmulos.”

Uma saída mais fácil do que substituir os cemitérios seria integrá-los à cidade. Hoje em dia, alguns já funcionam como uma espécie de museu a céu aberto, atraindo turistas, excursões escolares e outros visitantes de olhar lúgubre. É o que temos visto no cemitério da Consolação, em São Paulo. “São muitas as ações necessárias: rever suas relações físicas com o entorno; deixar as portas abertas; melhorar a manutenção e o ajardinamento, mapear os túmulos significativos; recuperar as histórias de quem está sepultado, suas lutas e utopias”, diz Cymbalista.

Mas o que fazer quanto aos novos cemitérios? É consenso que, em algum momento, não haverá espaço para enterrar mais ninguém e que a cidade não comportará mais espaços desse tipo. “Não vai ter terra para sepultar todos os mortos horizontalmente. Precisamos pensar em novas soluções”, diz o urbanista.

POLUINDO ATÉ DEPOIS DE MORTO

Ao pensar nessas soluções, os urbanistas precisam levar em conta mais uma complicação: os efeitos que os cadáveres causam no meio ambiente. O geólogo Leziro Marques Silva, professor da Faculdade São Judas Tadeu, em São Paulo, realiza pesquisas sobre o tema desde os anos 1970. Seu grupo de estudos analisou mais de 180 cemitérios no Brasil e mostrou que a decomposição dos corpos pode contaminar o solo e os lençóis freáticos em áreas próximas aos cemitérios. Um problemão para a saúde pública.

Segundo o pesquisador, o cadáver emite efluentes em dois momentos distintos. O primeiro acontece cerca de um mês depois do enterro, quando ele emana gases para o ambiente. “Um corpo de 70 quilos libera cerca de 24 litros de gases funerários. Mas a maior parte disso é absorvida pelas raízes dos vegetais”, diz Marques Silva.

O problema acontece entre 5 e 8 meses após o sepultamento, quando o cadáver começa a jorrar um líquido conhecido como necrochorume. Um corpo de 70 quilos libera em média 30 litros da substância. “Esse necrochorume é favorável à proliferação de vírus e bactérias, principalmente àquelas que causaram a morte dos corpos sepultados”, diz o geólogo. “As bactérias acabam morrendo conforme são filtradas pelo solo. Mas os vírus, que são minúsculos, conseguem atingir os lençóis freáticos. Eles entram em estado de dormência e podem ficar 15 anos num poço, até uma pessoa ingerir aquela água.”

Hoje esse risco é menor, já que o governo passou a exigir licenciamento ambiental para os cemitérios entrarem em funcionamento. Ainda assim, os pesquisadores procuram soluções que combinem tanto a preservação do ambiente quanto o respeito ao espaço urbano.

Uma das propostas mais defendidas são os cemitérios verticalizados. Neles, os corpos são colocados em urnas funerárias, que ficam empilhadas uma em cima da outra, como em um prédio. Lembram ambientes assépticos, onde as substâncias que resultam de decomposição são retiradas por tubos. Hoje já são encontrados em cidades como Porto Alegre, São Paulo,Brasília e Curitiba. “Eles são uma boa solução, mas precisam ser projetados direito”, diz Marques Silva. “Conheci alguns que tinham problemas em sua taxa de insolação. Eles passaram a ser uma fábrica de carne seca humana, onde os cadáveres nunca se decompunham totalmente.”

A outra solução, considerada ideal pelos pesquisadores, é a cremação. “Um corpo de 70 quilos, depois de três anos enterrado, vira uma ossada de 13 quilos, que precisa ser colocada em um ossário. Já o mesmo corpo depois de cremado vira dois quilos de cinzas”, diz o geólogo.

Mas nem todos essas mudanças. Algumas pessoas não aceitam a ideia de serem queimadas — mesmo depois de mortas — e algumas religiões não admitem a prática.

ESPAÇOS DO ADEUS

A cientista social Bárbara Thompson, pesquisadora da Universidade Federal do Espírito Santo, estuda justamente o que os diferentes modos de lidar com os cadáveres revelam sobre como enxergamos a morte — e a vida. “Os cemitérios, por exemplo, são frequentados por pessoas que fazem uso desse espaço para realizar seus rituais. É o que acontece no dia de finados, por exemplo”, diz. “Nesse caso, é a religião que atrai a população a local. Quem não é religioso, se afasta cada vez mais.”

Já os cemitérios verticalizados retiram de seu ambiente as referências religiosas. “Ele se parece com um prédio comum, sem símbolos que evoquem Jesus, Maria e os santos. Eles acabam se tornando lugares mais neutros e afastados da sociedade”, diz Thompson. “Esse tipo de construção é típico da sociedade contemporânea, que adota um discurso racional e científico, mascara os símbolos da morte e tem dificuldade em vivenciar o luto.”

“Esse tipo de construção é típico da sociedade contemporânea, que adota um discurso racional e científico, mascara os símbolos da morte e tem dificuldade em vivenciar o luto”

A pesquisadora diz que estamos no meio de uma transição entre essas duas visões. As tradições antigas ainda têm muita força, mesmo entre aqueles que não têm motivos religiosos para defender o modo mais tradicional de enterro. É o caso da urbanista Rosana Miranda, da FAU, que diz saber que a cremação é o modo mais racional de lidar como corpo. “Mas eu não gostaria de ser cremada. Para mim, o enterro é um ritual de despedida muito mais significativo”, diz. “Você está vendo como essa discussão passa pelo foro íntimo de cada um?”

Os arquitetos precisam levar em conta todas essas questões — urbanísticas, econômicas, ambientais, religiosas, familiares, culturais e ambientais — quando pensam em como será o cemitério do futuro. Essa é uma discussão nova, mas que já começa a ser traduzida em alguns projetos. “É a tarefa de todo arquiteto que desenvolve um grande projeto na cidade pensar no que o entorno está precisando”, diz Miranda.“Um novo cemitério poderia, por exemplo, ter um espaço mais enxuto para os túmulos, no formato dos cemitérios verticais, e ter áreas de parque acopladas ao redor. Isso humanizaria o entorno e melhoraria relação com a cidade.”

Existem propostas mais radicais, que defendem tanto uma volta ao passado quanto um mergulho no futurismo fantástico. No primeiro grupo estão aqueles que defendem que os corpos voltem a ser enterrados ao ar livre, em paisagens naturais, com uma árvore plantada sobre cada tumba. No outro, cientistas propõem que os corpos sejam colocados em cápsulas biodegradáveis. Serviriam como adubo em jardins ou receberiam culturas microbianas para acelerar a decomposição dos corpos.

Pesquisadores do DeathLab, da Universidade de Columbia, desenvolveram uma espécie de cemitério luminescente, que não deixa restos mortais no ambiente. “Eles criticam a cremação por ser um dispêndio desnecessário de energia. Desenvolveram um método para que a matéria em decomposição seja tratada quimicamente e se transforme em uma fonte de luz”, diz Cymbalista. “Ela brilha por cerca de um ano, até que a matéria vital do corpo seja totalmente consumida. Acho essa ideia muito poética.”

Ao desenvolver esses projetos, os arquitetos abrem novos caminhos para a prática antiga de cuidar dos nossos mortos. Quem sabe também não expandam o horizonte para o modo como vemos a morte?

(Via agência de notícia)

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